Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Directas do PSD: para regressar ao futuro (reinventar) é preciso regressar ao passado (clarificar)

Sábado, 06.01.18

 

 

O primeiro debate das Directas do PSD veio confirmar a análise que tinha alinhavado dos perfis dos dois candidatos, e acentuar alguns traços de forma inequívoca.

Também deixou a necessidade de clarificar o que se passou realmente no governo de Santana Lopes. Alguns comentadores, que são jornalistas, não gostaram deste regresso ao passado. Já perceberemos porquê. Mas para regressar ao futuro é preciso regressar ao passado, isto é, para reinventar (mote do discurso presidencial) é preciso clarificar.

Seria absolutamente inadmissível manter o equívoco "trapalhadas", e uma injustiça tentar passar uma esponja sobre o golpe presidencial de 2004. Mas é o que Rui Rio quer, o que o PS quer, o que os jornalistas desse tempo querem, o que até Cavaco quereria, o filósofo José Gil e outras personagens Porquê?

Porque todos, socialistas, os media, o artigo cavaquista, o livro do filósofo, e outras personagens fizeram parte da armadilha socialista.

Acompanhei os jornais da época, sobretudo quando começou a campanha diária contra o governo. Na altura os media tinham uma influência muito maior do que hoje. Não havia nada que reequilibrasse a informação, que clarificasse a agenda dessa informação. Mas hoje isso já não é assim. As redes sociais vieram permitir a troca de informação e opinião entre cidadãos, em tempo real. Compreende-se o desconforto dos políticos relativamente ao papel das redes sociais, veja-se o caso da lei do financiamento dos partidos.

Hoje a preparação da queda de um governo de coligação estável, como aconteceu em 2004, não seria possível. A preparação, também nos media, da personagem socrática, também não seria possível.

Os militantes do PSD mais jovens não acompanharam essa campanha mediática diária anti-governo. O termo "trapalhadas" surgiu no parlamento pela bancada do PS. e a partir daí foi generalizado de forma intencional.

Após o golpe presidencial, inicia-se a preparação mediática da personagem socrática, o determinado, o moderno, o visionário. Seria interessante e clarificador que os jovens militantes do PSD também lessem os jornais dessa fase. É por isso que alguns jornalistas hoje se sentem incomodados em ter participado nessa ficção e na deturpação da realidade política.

 

Quando no debate Rui Rio insiste que houve "trapalhadas", que Sampaio "teve razão só que podia ter esperado mais tempo" (!?), e que Santana "deu a única maioria absoluta ao PS", mantém o primeiro equívoco injusto ("trapalhadas") e acrescenta-lhe mais dois em cima: a legitimidade do golpe presidencial e o benefício de maiorias absolutas do PS.

Aliás, é com uma maioria absoluta que o actual PS anda a sonhar. Rui Rio acha que seria benéfico para o país? A sua crítica ao actual governo PS é tímida, "governa só para o curto-prazo", e passa por cima das cativações e da obsessão pelo défice, que estão na origem das falhas graves do Estado. Estas sim, seriam razões mais do que suficientes para apear este governo. 

 

Bastaram 13 anos para a política mudar mas poucos políticos acompanharam essa mudança. Bastaram 13 anos para a influência dos media tradicionais cair, a confiança nas instituições perder-se, a participação cívica começar a organizar-se.

Por isso vemos tantos políticos queixar-se do "populismo anti-partidos". Clarifiquem-se e reinventem-se.

 

Vale a pena rever o Expresso da Meia Noite de ontem, dia 5, em que se analisou o afastamento dos cidadãos da política e a cada vez menor identificação com os partidos.   

 

Irei apresentar a análise dos perfis dos candidatos na véspera do próximo debate, mas deixo já aqui uma mensagem para os militantes do PSD mais jovens:

Para escolherem o perfil mais adequado a um PM no séc. XXI, considerar estas palavras-chave: antecipação; equilíbrio; interacção; diversidade; complexidade; sustentabilidade; responsabilidade partilhada; participação cívica; cultura comunitária.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:11

D. Manuel Martins, que a sua voz nos inspire a sintonizar a nossa consciência

Segunda-feira, 25.09.17

 

 

  

D. Manuel Martins, que a sua voz nos inspire a sintonizar a nossa consciência...

 

Num mundo e numa Europa que está a esquecer o valor essencial da vida, que exclui os mais frágeis, que se está a organizar para excluir todos os que não lhe servem nos seus objectivos imediatos de acumulação de riqueza.

As próprias lideranças políticas, dos partidos que se consideravam democratas, ao seguir a lógica financeira dos grandes bancos e das grandes empresas, perderam a credibilidade e, nalguns casos, estão a perder a legitimidade. Abriram as portas à alienação cultural política, à revolta mal dirigida, porque as pessoas se sentiram abandonadas e esquecidas.

 

Em breve veremos análises políticas a deformar as causas da presença de partidos não democratas nos parlamentos. Em breve ouviremos o impensável, que a razão desta desgraça europeia está na abertura aos refugisdos.

Nada mais errado e perverso. A razão é económica e está nas desigualdades sociais. Desigualdades sociais que os partidos que se consideram democratas ajudaram a criar e a reforçar, pressionados pela cultura financeira da União Europeia.

Desigualdades sociais que se reforçaram depois da austeridade e que agora se estão a organizar à volta do "trabalho alugado" à hora e da automação. É este o verdadeiro motor da actual propaganda pelo UBI (universal basic income). Propor aos cidadãos uma espécie de subsídio vital (para comer, pois não dará para se abrigar), a que chamam cinicamente de "dinheiro grátis", em troca da sua alma, ou seja, da sua razão para viver. Porque sem a dignidade da autonomia, da pertença a uma comunidade, o que resta a uma vida humana?

 

D. Manuel Martins sempre esteve atento a essa realidade cruel. Em Setúbal foi uma voz isolada a lembrar todos os abandonados e esquecidos no tempo do cavaquismo.

D. Manuel Martins sentia as "dores do mundo", mas não se ficava por aí. Erguia a sua voz, e mesmo quando o chamaram "bispo vermelho" não se importou, pois afinal "vermelho é o sangue", ou seja, o sangue que nos corre a todos nas veias, irmanados na mesma condição humana.

Esse foi o percurso de D. Manuel Martins, essa foi a razão da sua vida, essa foi a sua escolha da consciência.

E qual é a nossa?

Inspirados na sua voz, cada um no seu papel, podemos sintonizar a nossa consciência para o valor essencial da vida.

E o valor essencial da vida é a abertura cultural à diversidade, porque a vida é diversidade, não é uniformidade.

O valor essencial da vida é a descodificação cultural do preconceito, porque a vida não se estrutura segundo exclusividades selectivas. Um organismo morre se uma parte de si adoece e não é tratada. O mesmo serve para as células que se desorganizam ou para vasos sanguíneos que se cortam, etc.

A vida organiza-se na aceitação de todos e de cada um, porque a vida é interacção e equilíbrio.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:07

Autárquicas 2017: Lisboa, a cidade luminosa que resiste à misoginia política a que chamam "dinamismo económico"

Quinta-feira, 07.09.17

 

 

 

Debates dos candidatos à câmara de Lisboa, na SICN e na TVI24. O que estes debates revelaram é verdadeiramente surpreendente:

O candidato mais preparado para compreender e valorizar Lisboa é João Ferreira. Secundado pelo candidato Ricardo Robles, que define a habitação como prioridade, e pelas candidatas Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho, que percebem o que está em causa, o equilíbrio e a sustentabilidade de uma cidade, e dos seus habitantes, que merecem melhor tratamento. E o candidato que pior lhe irá fazer, espero que não seja irreversível, é o actual presidente, Fernando Medina, e o seu "dinamismo económico".

 

Lisboa é uma cidade que sempre visualizei no feminino. Luminosa, acolhedora, versátil, sábia. Nem todos a compreendem mas todos a querem mudar e descaracterizar. Sem a compreender, como é que a podem valorizar? Lisboa resiste a esta misoginia política. A questão é: até quando?

 

Na mobilidade, um bom sistema de transportes públicos é fundamental para retirar pressão automóvel sobre o centro da cidade. O metro é o melhor transporte em rapidez, frequência, comodidade. Todos percebem isto. Mas, como João Ferreira demonstra num discurso bem articulado, se o preço do bilhete é superior à utilização do carro, como se motivam as pessoas a não utilizar o carro na cidade?

Também demonstrou que a ideia de uma linha circular pela periferia da cidade só vai piorar a acessibilidade da periferia ao centro, pois os utilizadores terão de fazer transbordo. É fácil de perceber. E sabem quanto estão a pensar investir nessa obra inútil? 12 milhões, foi o que percebi. Desconfio que será bem mais do que isso.

Lisboa, Lisboa...

 

A pressão do turismo sobre a habitação, outro desafio. A cultura dos vistos gold e o actual deslumbramento com o turismo de massas e de hotéis para ricos, está a empurrar os residentes do centro para a periferia. O preço das casas torna-se incomportável, o mercado de arrendamento segue a curva ascendente, e lá vai parte da alma lisboeta para onde não incomode. E o que irá acontecer ao comércio tradicional?

Aqui João Ferreira é secundado por Ricardo Robles, que se entusiasma com este desafio. É possível evitar a especulação imobiliária.

 

A pressão do turismo sobre o centro da cidade foi bem explicado por João Ferreira. A solução é diversificar o turismo por diversos pontos da cidade.

Visualizei o Terreito do Paço invadido por multidões de turistas a sair de embarcações de cruzeiro, a desembocar na Baixa e no Chiado, no Castelo e em Alfama, numa azáfama colorida e ruidosa, e estremeci. É essa a Lisboa de Medina.

Lojas que se transformam em formas de vender artefactos de gosto duvidoso que desfiguram a alma de Lisboa. A sua cultura antiga, de muitas camadas, que se vai revelando a pouco e pouco, nas ruas empedradas, nos azulejos que ainda não roubaram, nos vestígios que permanecem, nos jardins, nas praças, nas escadinhas, nos elevadores eléctricos, nos miradouros, nas igrejas, nos museusnos teatros, nas livrarias.

E depois, a Lisboa da ciência. Os laboratórios, os anfiteatros, os armários de madeira, como eram inovadores e poéticos.

A Lisboa da botânica, a Lisboa da geologia, a Lisboa das descobertas, curiosa e inteligente.

E também a Lisboa da cerâmica, do azulejo, da arte sacra, do mobiliário.

Não, não esqueci a Lisboa do fado. Há um turismo exclusivo do fado.

 

Há muitas camadas em Lisboa. A Lisboa dos palácios reais, magnífica e sumptuosa, num país falido. Este contraste é, ele próprio, didáctico.

Assim como a Lisboa burguesa estrangeirada, vaidosa, decadente e fútil, tão bem retratada em Eça, mas que não desejaríamos replicar.

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:08








comentários recentes



links

coisas à mão de semear

coisas prioritárias

coisas mesmo essenciais

outras coisas essenciais

coisas em viagem